quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Do Silêncio de Abelardo

Abelardo chegava, sentava e calava.

Discreto, no canto menos espelhado do Piolho, Abelardo, o Cavalo que Cala, pedia o café, e, depois de o tomar, ainda quente, de um golo, ficava, cascos dianteiros cruzados em cima da mesa, fixava os mesmos cascos, sem os ver, e calava.
Calava dores, pois claro. Não as suas, não donzelas – Senhoras Éguas, ou Senhoras-Senhoras, pois que em tempos com algumas delas sonhara – mas as dores de todos os Cavalos da Equinidade.
Dores de casco muitas, esporas gravadas outras tantas, Dores de flechas crivando flancos, de lâminas decepando patas, lanças trespassando pescoços, em nome do realismo da Batalhas; Calava a sede, a fome, em esqueletos cobertos de pele, assim colocados para dar nome à Seca, ao Deserto; e as cornadas fatais em dias de infelicidade.Calava cacetadas, varadas nas costelas de Rocinante; a morte do último Unicórnio, e o triste fim nunca esclarecido daquele cavalo -seria um burro?a dor era a mesma – com cuja queixada Sansão derrubou um exército de filisteus.
Calava as penas de todos os Cavalos da História, de todos os Cavalos de todo o Mundo. Do pelo queimado dos corcéis do carro de Hélio, aos tóxicos que reduzem drasticamente as populações de cavalos-marinho. E os esforços, os castigos, sofridos às mãos de lavradores injustos, carroceiros rudes, e donos de circo cruéis.

E se, no fim de tanto calar, a hora de ir embora coincidia com mais um brinde da Tuna, que diante do seu Silêncio ensaiava, Abelardo erguia-se e calava mais alto. O brinde era seu. Pedíamos Vinho, pedíamos Broa. E Abelardo Calado, logo brindava.
Era o Brinde das Sopas de Cavalo Cansado.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Os Nossos Outros Valores XXXIII

A Vinicultuna nao usa caldos Knorr.

A Vinicultuna gosta da gorda do presunto.

A Vinicultuna e um delirio colectivo.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Portfolio de Nomes para Tunos e caloiros de Tuna - I

Para usar nos futuros Tunos e caloiros de Tuna da Vinicultuna,
Para trocar com Tunas Amigas,
ou simplesmente para Coleccionar

Para caloiro de Tuna:
-Balancé
-Elefantino
-Pimpão

Para Tuno:
-Ogrão
-Malagueta
-Balsemão-Além-Mares

Os Nossos Outros Valores - XXXII (Especial Digressao)

Se a Vinicultuna fosse um barco, seria uma lancha poveira.

A Vinicultuna gosta de dormir ao relento, nas noites de Verao.

Sempre que pode, a Vinicultuna traz consigo um pote de banha. Para o que der e vier!

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Álgebro, Professor de Aritmética, Ponto da Vinicultuna de Biomédicas-Tinto

Enquanto Álgebro, o Professor de Aritmética foi o Ponto da Vinicultuna de Biomédicas-Tinto, não mais um Tuno trocou uma letra, não mais a segunda metade da segunda estrofe encaixou na primeira metade da primeira estrofe, não mais palavras foram soluçadas à pressa ou interrompidas a meio.
Álgebro, sentava-se invariavelmente num lugar lá para o meio, onde ninguém desse por ele, ligava uma lanterninha de espreitar gargantas, prenda de um dos Tunos que ia mais adiantado, e apontava para os próprios lábios, para os próprios dentes, e cantava a letra no código que ele inventara, e só a Tuna entendia. E, guiada pelos lábios de Álgebro, a Tuna cantava certinha, certinha, certinha, pauta acima, pauta abaixo, mesmo quem tinha faltado aos ensaios, e quem não aparecia há muito tempo, embora levasse bocas na mesma.
Álgebro não sabia as letras. Sabia o código. Álgebro não cantava. Excepto quando não havia mesas livres lá para o meio, e Álgebro se tinha de sentar nos lugares junto à parede, lado a lado com o reflexo dos espelhos. Então, Álgebro lia os lábios do Reflexo do Reflexo da sua própria imagem, a soletrar o Código, e então conseguia cantar. Menos no dia em que, em lugar de olhar para os Lábios do Reflexo do Reflexo, olhou directamente os Lábios do Reflexo da própria imagem, e cantou tudo invertido. O pior é que uma velhinha ouviu, e julgou que era coisa do Diabo-VadeRetrum.
E se calhar era, porque era um código difícil, com números, contas de multiplicar e dividir por mais de dois algarismo, e com tantos Pis, Rós, Xis e Quis Quadrados, que houve quem garantisse que Álgebro era da Faculdade de Letras. Pois apesar do grau de dificuldade a verdade é que, Álgebro nunca precisou de dar explicações aos Tunos para que estes aprendessem o Código. E nem sempre as contas eram fáceis. Umas vezes apareciam muitas cervejas a mais, noutras sobravam Restos esquisitos. Mas como a Tuna cantava bem, as cervejas iam por conta da casa, e os Restos Esquisitos, dava o Tuno Grande Morsa a comer aos caloiros – isto se não lhe soubessem.
Houve a noite em que Álgebro cifrou o repertório da Tuna num problema de torneiras e tanques, e de facto, quando a actuação acabou, a sala que começara vazia, estava a transbordar, e Álgebro disse que o segredo era um enunciado com Vinho.
E Álgebro, o Professor de Aritmética, conheceu o máximo expoente enquanto Ponto da Vinicultuna de Biomédicas-Tinto, na noite em que, sem combinar, Álgebro começou a silabar por algarismos, incógnitas e potências, a cifra do Próprio Fado Cantado, e a Vinicultuna cantou à primeira, sem nunca ter ensaiado ou sequer mirado pauta, a História do Amor Desgraçado de Álgebro, Abandonado pela Mulher da Sua Vida – e toda a gente no Piolho aplaudiu – embora algumas pessoas tenham ficado com a certeza de que a senhora tinha morrido.
Mas do que Álgebro mais gostou foi da noite em que sem combinar, o Magister Piça Quadrada apresentou “O Primo Álgebro”, e Álgebro cantou o “Fado do Trinta e Um”.

sábado, 11 de agosto de 2007

Jogos de Sorte :: parte I

Após árduo regresso de Aveiro, cujas marcas se manifestaram por, pelo menos, uma semana nos meus glúteos doridos e cara de tons ciganóides, eis que chegamos à Póvoa de Varzim.
Após termos gasto em duas rajadas quase tudo o que tínhamos, à excepção de "uns pretos", como diz o tuno Inca, decidimos seguir caminho para despistar um amigo do ToZé que nos tinha aparecido e jurava que estava connosco. Foi preciso pedir-lhe que nos deixasse duas vezes, até este se encaminhar para o mar.
Quando demos por ela, tinhamos passado por um letreiro duma casa gigante que dizia
"Casino da Póvoa"... com um cartaz duma perna duma moça, tanto quanto me lembro, e que dizia que era possível jogar com 1 cêntimo. Ora, cêntimos era o que não faltava!
Então, rapidamente descobrimos que os finos eram a 80 cêntimos, com vista para os chineses a apostar aos 3000 contos por ficha na roleta! E os cafés 30 cêntimos. Para que é que gastámos tanto em frango!
Logo nos dirigimos para a entrada... onde somos muito bem recebidos por um senhor engravatado que nos diz que aquela situação era inédita! Os instrumentos tinhamos que deixar a porta! e as capas talvez... ia falar com o superior.
Perante esta hipótese sombria, impossível de aceitar, decidimos esperar.
Vem o tuno Fodunt:
"-Diz-lhes que se fossemos Árabes também não íamos tirar as burkas!"
Vem outro senhor engravatado, este com ar mais bem disposto, dizer-nos o mesmo...
Digo eu: "- Se fossemos Árabes também não íamos tirar as burkas!"
E diz ele... "- Pois... Deixe-me falar com o meu chefe."
Afasta-se uns metros e diz, com ar de riso... "-Sr. Engenheiro..... estão aqui uns... " o resto foi imperceptível mas após tentar medir as nossas intenções, indicou-nos prontamente o caminho do bar, mas não sem antes nos tentar dissuadir a tirar as capas. Se soubesse que dois caloiros tinham inclinações sadomaso e estavam a usar gravata e colete sem camisa... tería-nos indicado a sala vermelha para um show às loiras de 50 anos. Mas como discrição é uma característica nossa, nada foi descoberto, e fomos às loiras fresquinhas, a sair na hora.

E assim começou que poderia ter sido horas a beber cerveja, se não tivéssemos estourado 14 euros em cervejas de lata e 5 euros em águas frescas pela grade de um café fechado!

---Fim da parte I

Nota: Durante a realização deste filme nenhum caloiro foi ferido, e a identidade dos dois caloiros supra-referidos será protegida, sendo que um deles é menor. Mas já sabem traçar a capa!

domingo, 5 de agosto de 2007

Do Fim da Noite XIII

Luz da manha suspensa
sobre dois enamorados
Quarto sem cortinados

Do Fim da Noite XII

A bordo do autocarro:
"E que tal se nao saisemos na nossa paragem. Pode ser que a proxima nos leve para mais perto do nosso destino.
Seja ele qual for..."

Os Nossos Outros Valores - XXXI

"A Vinicultuna conhece a Velha do Arco. E nem a acha nada de especial."

Da Demanda de Sezaltina

Sezaltina nunca chegará a encontrar a Vinicultuna.
Mas procurá-la-á incessantemente por todo o lado.
E um dia, anos mais tarde, muitos muitos anos mais tarde, por alturas da, benzamo-nos, cruzes credo, arre-arreda-mafarrico, longe vá o agoiro, Sua Morte, não olhará para esse insucesso com amargura, como sonho interrompido ou desígnio poor cumprir antes como a sua condecoração enquanto Cavaleira do Graal.
Sezaltina nunca chegará a encontrar a Vinicultuna.

Na sua busca infindável, contará mil motivos para voltar à estrada, contará mil histórias a filhos, sobrinhos, netos, sobrinhos-netos, a um bisnetinho que então, nessa hora maldita-longe-vá-a-desdita, terá, e a muitos muitos mais ainda, médicos burros - “Isso cá para mim é cansaço”, “Está com um esgotamento”, “Deve ser princípios de Alzheimer”, “Hmm, hmm, está a fazer uma Trombose”, “Isso que me está a contar é muito estranho”.
Porque de cada vez que se escapuliu da vigilância da filha crédula e do médico burro, para rumar ao Porto guiada por sonhos, sinais, cartas, cartazes, por ideias, por lamentos, e uma vez por um motorista da carreira que já estava tocadito, Sezaltina viveu deslumbrantes peripécias. Aventuras. Loucuras.

Seguiu um cão-esperto, que a viera esperar à Central, e riu-se com as finezas do bicho a entrar nos talhos, a andar em duas patas, a prender os ladrões; a pular para as caixas das camionetas, a molhar-se nas fontes, e a roçar-se nas moças, e dormiu na sua casota;
Da vez seguinte à do Cão-Esperto, deitou-se a adivinhar como um detective, e desmascarou uma senhora que deitava remédio no chá dos velhinhos para lhes ficar com o cheque das pensões;
Foi entrevistada-de-rua para um programa de televisão – e ela até nem via o programa!;
Uma noite em que por três vezes lhe disseram que a Vinicultuna estava lá, só que quando ela chegava, a Tuna já tinha partido para ali, e ao chegar ali, tinha ido para acolá, e acolá, tinham voltado para cá, porque afinal a gente é de onde pertence, e por isso, Sezaltina voltou para a Terrinha;
Num dia de ventania, ao defender-se do vento com um guarda-chuva que lhe tapava as vistas, embarrou sem querer com um polícia, e sem querer vazou-lhe um olhinho;
Noutra noite ouviu o eco da “Feiticeira” filtrado pelas folhagens das árvores do Jardim da Cordoaria, só que quando lá chegou era só uma lagartixa, mas cantava parecido;
Perdeu o medalhão com a fotografia d'O Falecido para na mesma noite o encontrar noutro sítio, com a improvável ajuda de um cidadão Tailandês (dão de facto muito jeito – precisamos mesmo de arranjar um);
E a vez que esteve mais perto da Vinicultuna, foi quando encontrou um Professor de Matemática, mas com aspecto desarranjado, sentado na borda do passeio, com os pés na valeta, num dia a seguir a muita chuva com os bueiros entupidos, a chorar a despedida, só que Sezaltina não percebeu de quem se tratava, e deu-lhe um rebuçado de mel, para não se constipar;

Mas Sezaltina nunca chegará a encontrar a Vinicultuna.

terça-feira, 31 de julho de 2007

Grandes Frases - LXVI

"Cada qual é como Deus o fez, e muitas vezes ainda pior."

Sancho Pança, em "D.Quixote de la Mancha",de Miguel de Cervantes, Segunda Parte, Capítulo IV

Vinicultuna, a conquistadora!

algures entre um parque infantil e o casino da póvoa - 2007

Abelardo, o Cavalo que Cala

Se alguém houve que tenha reparado nele, só pode ter sido um dos frequentadores mais antigos, dos tempos das reuniões do reviralho, e que ainda não perderam o hábito de pesquisar no Piolho a presença de discretos observadores.
Abelardo entrou discreto, de gabardine e óculos de sol, como só pode andar quem quer passar despercebido, e sentou-se num canto a ler o jornal, escondido no entalhe entre a coluna-mestra e a parede, no ponto-vácuo dos espelhos.
Portanto, não poderá sido a Vinicultuna a reparar nele, mas ele a reparar na Vinicultuna. Quantas vezes terá escutado os nossos ensaios? Já estaria lá quando preparávamos o Casamento do Velho, e depois saiu tudo ao contrário? Ou quando o Velho ainda era Novo? Mas nesse caso o Senhor Nogueira tê-lo-ia topado – que saudades de o ver a espreitar pelo espaço entre as revistas penduradas nas traseiras do quiosque do Senhor-Nogueira-Pai. Ter-se-á alguma vez sentido incomodado pela nossa presença? E se sim, como é que se terá dado a reviravolta da antipatia para a simpatia?
Certo é que já nos estudava há muito. E sem dúvida simpatizara connosco. De outra forma nunca teria quebrado o silêncio da forma que quebrou, no dia em que, sem reparar, nos havíamos sentado a seu lado, encurralando-o entre a harmónica-algazarra-em-preparação e o entalhe da coluna-mestra na parede, no ponto-vácuo dos espelhos. Simulando que precisava de se levantar, simulou que olhava o relógio e que ficava surpreendido com o mostrador, para poder simular que nos abordava para confirmar o atraso...
“Ó Crscalho...” - demonstrando a sua enorme categoria na atrapalhação com que se forçou a mal-disfarçar o palavrão - “...que horas são?”,- e na cortesia com que, denunciou a sua condição, pois que ao dirigir-nos a palavra pela primeira vez, retirou o chapéu que cobria sempre o cabeção.
E pela primeira vez o eco do brinde foi quebrado, pois que aos múltiplos “São as Horas que Eu quiser!”, alguém respondeu,
“Ó Carago! Um Cavalo que Fala!”.
Era Abelardo, um Cavalo sim, mas em vez de falar calava.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Da Doença de Sezaltina

"E agora, Doutor, que à Mãezinha dá-lhe para sair de casa porque diz que tem de ir não sei onde, ir ter ter com uma gente que a gente nem sabe se é parente da gente se é gente que ela ouviu falar a outra gente, ou sequer se é gente, e desaparece-nos horas mesmo dentro de casa, mete-se na cave, anda para lá aos tombos com a luz apagada, e a dizer coisas trocadas! Será Alzheimer?"
E o médico, que era burro,
"Hum...Isso deve ser Alzheimer!"
E Sezaltina, de si para si, bem-pensou
"E que bem que sabe!", e melhor-lambeu uma gota de Tinto da Cave que lhe ficara no canto dos beiços.
E enquanto o médico, que era burro, passava umas vitaminas e um calmante para o Alzheimer da Mãezinha, escapuliu-se do consultório, desceu as escadas de um salto, e escondeu-se na garagem da carreira para o Porto que ficava ao lado do consultório do médico-burro, e que estava mesmo a sair. Já por isso negociara com a filha "não ir à Caixa que os de lá não querem saber da gente, e ir por ir, ia a pagar, ao que fica ao lado da garagem da carreira, que dizem que sim, é muito bom."

Porque "não sei onde" era ao Porto, e "a gente" não era parente, nem se sabe sequer se é gente, porque é da gente, quer dizer da Vinicultuna de Biomédicas-Tinto que se trata, de quem Sezaltina não ouviu falar a outra gente, antes encontrou um autocolante varrido pelo vento de uma noite de digressão, e colado nas manhãs anteriores ou nas manhãs seguintes por um menino mau no pêlo de um cãozinho-bom , que atravessou a ganir a terra, as terras atrás e à frente, as terras à volta e as estradas que as unia, até encontrar Sezaltina que descolou com cuidado o autocolante do cãozinho, e leu, "Vinicultuna de Biomédicas-Tinto? É gente boa concerteza, e não faziam isto ao bichinho.",no mesmo momento decidindo como desígnio de velhice calcorrear o país todo para os encontrar.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

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segunda-feira, 23 de julho de 2007

Procura-se Amigo Imaginário - O Caldas-Tinto

O Caldas estava de sentinela.
O Caldas adormeceu. E foi encontrado pelo Avô Custódio.
O Avô Custódio não denunciou o Caldas, e quando a Tropa acabou, ainda lhe arranjou emprego como capataz, que é uma espécie de sentinela nas obras da Barragem.
Por isso, o Caldas prometeu, e enquanto foi vivo cumpriu, entregar na casa do Avô Custódio meia-dúzia de caixotes de laranjas da terra.
Além disso, a par do Senhor António, marido da Carminda de Pardilhó, a quem o Avô Custódio também arranjou emprego lá nas obras da Barragem, era a única pessoa que era capaz de jurar, que o Avô Custódio era um Homem Muito Bom.
E jurou-o sem mentir, até certo dia do ano em que o Caldas deixou de mandar laranjas.

Naquelas noites em que o Piolho já está fechado, e o orvalho diluiu a última gota do Vinho trazido do Solar da Elsa, dava muito jeito um Caldas-Tinto que aparecesse sem avisar, para pagar favores eternos, com Produtos Engarrafados de Região Demarcada.
O Juvenal, que esteve a 5 dias de acabar a tropa, e é Oficial do Exército Português é que nos devia ter arranjado um.
E então nessas noites, se o Senhor Nogueira já se tivesse ido deitar, o Caldas-Tinto, ficaria de olhos bem abertos, de Sentinela como nos tempos da tropa, a ver se não vinha a polícia ou a escumalha perturbar as Serenatas. E enquanto isso também fazia horas até o Sol se levantar, para voltar para casa, pela estrada cheia de curvas, que isto da noite dá sono, e isto do sono torna a condução um perigo.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

A Alegria de Um Amigo Imaginário

Depois de conhecer a Vinicultuna, Álgebro deixou de ser distraído.
E voltou a ser feliz.
Numa noite de copos abraçou-se ao Tuno Água Benta a chorar as agruras da viuvez.
Noutra noite pediu com voz de lábios trementes ao Tuno Genoval Fodido, que acompanhasse à guitarra a tabuada dos 7. E como foi tocante ouvir “8x7,56” cantado, e conferir que estava certo.
Noutra abraçou-se a chorar ao Tuno Honorário Mineteiro, queixando-se que se abraçara ao Tuno Sábio Inca, a chorar a mulher que o deixara, e que este sem o ouvir lhe respondera “Pois, pois...”, no que o Tuno Honorário Mineteiro o foi consolando com as palavras sábias “Pois, pois...”
E noutra ainda invocou a chorar os tempos de Faculdade, embebedando-se com todos os Tunos. E com a tristeza sincera a embargar-lhe a voz, lamentou não ter então sido mais calão.
E numa noite em que chovia, sob protecção de um Alpendre-mas-Pouco, contou aos Tunos-mas-Muitos, a história triste da única mulher da sua vida, não escapando a ninguém as lágrimas que se diluiam nas poças.
Os figurantes da noite do Porto habituaram-se a referir-se a ele como “o das matemáticas que anda na cantoria com os cabrões dos estudantes”.

Amigos da Tuna III


Nome: José
Mais conhecido por: "Senhor Zé"
Profissão: Marceneiro e Animador Cultural de Peso da Régua (agora no Porto)
Hobbies: Fadista e Dançarino

O Senhor Zé (não confundir com o proprietário do Solar da Elza, sobre quem muito se há-de escrever!) é o amigo da Tuna que vos trago hoje. O primeiro que há dizer sobre o Senhor Zé é que ele não faz a mais pequena ideia do que é a Vinicultuna, esta nunca lhe foi apresentada, e provavelmente nunca ouviu falar nela (quem sabe?). No entanto conseguiu conquistar o coração de todos quantos Tunos se lhe atravessaram no caminho, nos escassos momentos que partilhamos com ele uma destas tardes de Verão.

O pouco que sabemos dele é que exerce a nobre profissão de Marceneiro em Peso da Régua, em part-time com um importante papel na Animação Cultural da vitivinícola cidade douriense. No mês de Julho, desloca-se à Praça Parada Leitão, Porto, sempre de directa e acompanhado do seu ocasional amigo e instrumentista, Dum-Dum. Os objectivos destas incursões são pouco claros, ou talvez demasiado óbvios, mas não interessa aqui averigua-los.

O seu riso fácil, o seu gosto pelas bebidas do espírito, os seus dotes de cantor e bailarino, o seu bigode, a sua natural boa disposição, espontaneidade e a sua total desinibição fazem-no merecedor, como poucos, da nossa amizade ao primeiro copo.