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segunda-feira, 31 de março de 2008

No fim de um mês quase sem pecar, Viagem a um Sarau do Passado, (com Inveja de então não ter estado lá) - Ensaio Sobre a Inveja - O que diria Freud?



E quando o pano baixava, mais cedo do que o previsto, o fundo lá fundo da sala acendia-se, mas não era a luz, não era intervalo, antes a celebração do momento mais negro, fizesse-se um minuto de escuridão, de silêncio não.
E quando o pano baixava, à altura dos nossos olhos, quando tapando-os, já nos podiam fitar, o fundo lá fundo da sala acendia-se, era um homem coberto de fogo, que silvava.
E quando o pano baixava, mas continuávamos a tocar, já só se ouvia “corja” e “degredo” e “vergonha” e “Bebêdos”, e continuava “corja” e “degredo” e “vergonha” e “Bebêdos”, mas só se ouvia o que continuávamos a tocar.
E quando o pano baixava, à altura das nossas solas, que quiséramos a sapatear, mas sOLÁ COPAR, então nós parávamos, que a luz que passava, sob o veludo rosado, não era das chamas, era das donzelas, a palpitar.
E o homem coberto de fogo já não silvava, mas não se apagara. Nunca tinha estado lá.

"L'Invidia", Giotto, Cappella degli Scrovegni - Padova

sábado, 8 de março de 2008

Manifesto Contra a Inveja

A Vinicultuna não se importa de não ser a melhor.
A Vinicultuna não abate animais para fazer instrumentos musicais mágicos.
O Tuno da Vinicultuna gostaria muito de dar um beijinho na bochechinha inflada e cianosada de uma Deuzela.
O Tuno da Vinicultuna não teme ser esfolado porque tem uma capa negra de lã quentinha.
A Vinicultuna até nem se importa de ser a pior.
À noite, quando a Lua está alta, e todos menos as Musas estão a dormir, os Tunos da Vinicultuna fazem concertos extraordinários de Flauta de Pã Tocada às Avessas.
Os Tunos da Vinicultuna lamentam profundamente não ter orelhas de burro.

Mais do Mesmo - mas ainda pior


Certo dia, Atena, criou uma flauta dupla a partir dos ossos de um gamo, e decidiu apresentá-la durante o banquete dos deuses. A Música encheu a sala, mas, enquanto Atena tocava, Hera e Afrodite não deixavam de rir. Despeitada, Atena pegou na flauta, erefugiou-se nos bosques da Frígia. Sentada numa rocha à borda de água, reparou no seu reflexo enquanto tocava. A suas bochechas enchiam-se de ar e adquiriam uma tonalidade azul. Horrorizada com o ridículo, a deusa atirou para longe a flauta, e amaldiçoou-a e a quem quer que se apoderasse dela.
Quis o destino que por ali passase um Sátiro chamado Márcias, que encontraria a flauta esquecida nas ervas. Recolheu-a e logo a levou aos lábios. A flauta encantada começou a tocar por si antes ainda do primeiro sopro.
Márcias aproveitou-se do novo tesouro, para se exibir pelas aldeias e campos da Frígia, entretendo aqueles com quem se cruzava. O grau do seu sucesso e a qualidade do seu sopro era tal, que muitos lhe diziam que nem Apolo se lhe compararia. Insensatamente, Márcias não os desmentia.
Quando as notícias chegaram aos ouvidos de Apolo, este ofendeu-se, e desafiou o sátiro para uma competição musical, cujo vencedor poderia infligir qualquer punição ao derrotado.
Márcias iniciou o concurso, e o ar encheu-se com a alegria da sua flauta.
Quando Márcias terminou, Apolo fez chorar as cordas da sua lira, mas ninguém se deu por triste.
As Musas, incumbidas de decidir, escutaram intensamente, declarando o concurso empatado.
Apolo renovou o desafio. Desta feita tocariam com os instrumentos de pernas para o ar. Sem pensar, Márcias aceitou o repto, cego de confiança, que cedo se desvanesceu, ao perceber não ser possível emitir qualquer nota da boca da flauta.
Sem dificuldade, Apolo, inverteu a sua lira, e voltou a extrair dela uma melodia divina. As Musas não tiveram dificuldade em decidir por Apolo, que executaria de forma cruel, a punição do rival.
Márcias seria esfolado vivo, e a sua pele pregada ao tronco de um pinheiro.

"Flaying of Martias", de Tizziano - State Museum - Kromeriz

Sobre a Inveja


Pã, o deus pastor, e da natureza, vagabundeava pelos campos e florestas soprando a flauta que inventara e baptizara com o seu nome. Habituado ao efeito que o som doce produzia nas criaturas da terra, cresceu nele a ideia de que era o maior o músico entre deuses e mortais. Maior que o próprio Apolo, a quem se propôs bater em competição musical.
Apolo aceitou o desafio, pretendendo puni-lo pela arrogância. Perante a montanha Tmolus, os seguidores de Pã e Apolo perfilaram-se para os escutar. Entre os que acompanhava Pã contava-se Midas, Rei da Frígia.
Pã tocou primeiro. Da sua flauta de cana soprou um som selvagem, apelativo, que trouxe dos ramos mais altos das árvores os pássaros, do fundo dos troncos os esquilos, e as próprias árvores, curvaram-se como que querendo dançar. Os faunos, estouraram em gargalhadas, antecipando com júbilo, o triunfo de Pã..
Então Apolo assumiu. Carregava a sua lira dourada. Quando fez estremecer as cordas, soltou no ar uma música como nunca fora escutada por ouvidos mortais ou imortais. Nas profundezas do bosque os animaizinho petrificaram, as folhas das árvores pararam de rumorejar, a terra deixou de respirar, o ar de suspirar.Quando Apolo terminou, encheu o mundo de vazio.
Sem uma palavra, todos os espectadores cairam aos pés de Apolo, proclamando-o vencedor.Todos excepto Midas, que, sozinho, recusava-se a admitir a superioridade de Apolo sobre a música de Pã.
Apolo sentiu-se ofendido.
"Se as tuas orelhas são tão rudes, mortal, então que tomem umas forma mais adequada." E ao toque de Apolo, as orelhas de Midas alongaram-se, pontiagudas, e escureceram, peludas, transformando-se nas orelhas de um burro.
"Judgement of Midas", de Peter-Paul Rubens, Bruxelas

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Antes que o Mês Acabe

É p'ra amanhã,
Deixa lá não faças hoje,
Porque amanhã tudo se há-de arranjar!
Ai!, Tu bem sabes que o trabalho foge
Mesmo de que~m diz que quer trabalhar.

Eu sei que tu andas a procurar
Esse lugar que acerte bem contigo,
Do que aparece tu não consegues gostar,
E do que gostas já está preenchido.

de "É p'ra Amanhã" - António Variações

Ensaio/Conto Sobre a Preguiça - Do Grande Livro da Vinicultuna e dos Animais

"Morreria a Preguiça de sede se, em vez de à borda do charco de água, tivesse adormecido junto a um Pipo de Vinho?", enunciou um deles em voz alta, e os outros calaram-se como que anuindo.
"A Preguiça está a dormir.", postulou com voz firme.
E os outros trouxeram o Pipo de Vinho, e abriram-no por cima.
Todos se afastaram, e observaram.
A Preguiça acordou, e não morreu de sede.
E eles concluiram, "Assim seja!"
E foram Felizes para Sempre.

Dos Perigos da Preguiça

Ficar um dia inteiro a Branco, enquanto não chega o caloiro que há-de ir buscar o Tinto.

Bom S.Valentim...

Devia ter-se dito,
antes ou depois,
do último dito.
Pois sim!,
Diga-se.
Isto não é Preguiça.
É desleixo.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Da Preguiça, ou Do Justo Descanso Semanal de um Competente Técnico Executor de Tarefas

(De uma porta no fim da tarde, para o fundo do corredor escuro no fundo do vão das escadas - a campainha já soara, e as visitas haviam-se feito não-anunciar)

- Notícias frescas na soleira!
- Quem chama?...
- Notícias frescas, mas não é o carteiro!
- Quem chama?...
- Notícias frescas, vem à nossa beira!
-...
- Estás de meias?
- Estava na cama...
- A sonhar?
- Estava na cama...
- Às seis e meia?!? Francamente, senhor Nogueira!

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Sobre a Preguiça - Deturpando Dali


"La persistencia de la memoria", Salvador Dali
Museum of Modern Art - New York City

Vai-me Faltando Energia

Para escrever pohesia
Fosse como antigamente
E seria mais frequente
Mas estou velho e vicioso
Sinto-me criterioso
Sinto-me consciencioso
Sinto-me preguiçoso.

"Cantilenas em Geleia", de Boris Vian
(tradução de Margarida Vale de Gato)

Veio Para Estudar

Veio para estudar. Abertos estão
dois ou três livros; historiadores e poetas há.
Depois de ter lido, dez minutos, não,
atirou com eles. No sofá
fica meio adormecido. Pertence plenamente aos livros -
mas tem vinte e três anos, e ´ de muita beldade;
e hoje pela tarde passou o amor
na sua carne ideal, nos seus lábios.
Na dua carne em toda a beleza arde
Passou o fogo da voluptuosidade;
sem pudor ridículo pela forma do deleite.

"Os Poemas"
Konstandinos Kavafis
(tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis")

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Sobre o Apetite - Pecado ou Virtude? - Ensaio Fotográfico




Entre a Virtude da Fome, e o Pecado da Gula, ...



...ou o suavesforçado percurso do caloiro da Vinicultuna

"Oveso" será, o Tuno Aqua Bentis




terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Do Pecado da Gula

O Magister Piça Quadrada engordou 30 quilos em 2 meses.

À Mesa, como Na Vida - da Justiça e Equilíbrio da Colher do Tuno Honorário Mineteiro, quando ainda não o era, na hora de servir os Futuros Contunos...

...à mesa na República "Ó-Ay-Ó-Linda!"

Duas Colheres de Arroz para o Tuno Grande Morsa, que ainda não o era, porque é muito grande e forte.
Uma Colher-e-Meia de Arroz para o Tuno Chiclete que já o era, que não é tão grande como o Tuno Grande Morsa que ainda não o era. Corrijo, Uma Colher de Arroz para o Tuno Chiclete, porque de facto é bastante mais pequeno que o Tuno Grande Morsa que ainda não o era, e porque ainda falta muita gente servir-se, o arroz não é assim tanto, somos visitas, e não podem pensar que somos uns alarves.
Duas Colheres de Arroz para mim, que não era nem sou tão grande como o Tuno Grande Morsa que ainda não o era, e até era e sou mais pequeno que o Tuno Chiclete que já o era, mas depois de ver o produto de Uma Colher de Arroz no prato do Tuno Chiclete que já o era, concluo que é capaz de ser pouco, e agora já não falta tanta gente servir-se.

Das Virtudes dos Pique-Niques

"Riu-se o lacaio, tirou a cabaça, sacou dos alforges as fatias de queijo, e um pão pequeno, e ele e Sancho sentaram-se na verde relva, e em boa paz e companhia deram cabo de tudo o que vinha nos alforges com tanta gana, que até lamberam o maço das cartas, só porque cheirava a queijo."

de "O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha", de Miguel de Cervantes

Da Virtude da Fome...

O Tuno Chiclete rapou o tacho depois do jantar, na Real República Ó-Ay-Ó-Linda.

sábado, 19 de janeiro de 2008

L’enfance de Pantagruel



Gustave Doré ( 1832 –1883), Musée d'Art Moderne et Contemporain, Strasbourg